domingo, 22 de maio de 2011

Encontração

        




        Perdeu o voo para São Luís. Mario Quintana não a deixou partir. O portão de embarque era o de número 11. Só conseguiu chegar até o portão 3, onde havia uma livraria bem em frente. Encontração. Drummond estava lá. Clarice também. Não achou carpinejar. Mas Mario Quintana... "há". Tem. Tinha. Sempre haverá.
         O número do voo foi chamado várias vezes. Voo 3865: Embarque imediato! Última chamada! Sra Roseane Cristiane.... última chamada. Tarde demais. A referida sra  foi abduzida pela livraria do aeroporto. Não quis mais saber da vida, não quis saber do voo. Queria parar a vida naquela respiração. Pra falar a verdade desejou mesmo foi morar naquele local: a casa dos livros, no mundo dos encontros e despedidas, dos achados e perdidos.
            Um segundo de lucidez e percebeu que havia algo de errado. Seu voo não foi anunciado? O que teria acontecido?
         Depois de comprar o livro desejado, resolveu procurar o tal portão de embarque. Atravessou o corredor. Não viu ninguém. Corredor longo, solitário que dava acesso ao portão 11 das viagens internacionais. Portão ainda desconhecido por ela. Só encontrou os comissários. Seu coração acelerou. O seu bilhete foi conferido:
            - Chamamos esse voo várias vezes, senhora!
            - Não! (Espanto e taquicardia)
            - Sim! Fizemos até chamada nominal.
            Ela arregalou os olhos, desesperada.
            - A senhora estava lendo?! Os livros distraem mesmo.
            Um silêncio ensurdecedor instalou-se.
     Livros nas mãos. Impossível omitir. Balançou a cabeça confirmando a sentença. Respiração sobressaltada. Vontade de chorar. Não sabia o que Mário tanto queria: sua tarde, seu plano. 
         Será que o número do voo era esse mesmo?  Não sabia. Não entendia nada. Conseguiu a transferência de seu voo perdido para o primeiro horário da noite, 20 horas. Mário Quintana ficou. Ela concluiu a leitura do livro "Da preguiça como método de trabalho" e leu o "Para viver com poesia" em duas horas. Vida vespertina entregue ao poeta brasileiro. Deliciosa e dolorida abdução. Força criadora do pensamento. Coisa de quem quer a poesia, a ilusão, o irreal, o contraditório, o humano, o encantamento. 
         Antes de sair para ir pela segunda vez ao aeroporto, deixou os livros de Mário em casa. Não podia correr o risco de perder o voo novamente. Adentrou a sala de embarque mais uma vez, se acomodou de frente ao portão já confirmado e esperou pela decolagem. Agora, já inundada de poesia.
***

Marioquintanear....

É ser abduzida na livraria do aeroporto, enquanto seu avião decola. 
Leitora totalmente fora de órbita.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Minha mulher



Minha mulher tem meu cheiro
Metade do seu líquido é meu
Até sua mágoa tem meu nome
Seu gemido, seu néctar, sou eu.

Feito bicho farejo o seu corpo
Amordaço sua boca, envolvo seu pescoço
Minha presa feminista
Por loucura esbraveja
Meu amor, minha conquista
Minha pele ela deseja

Sereia perfeita
Barco naufragado
Profunda riqueza
Sou seu enamorado
Mergulho nesse oceano
Inquieto e desumano
Desorientado.

Não vou correr ao seu encontro
Nem vou ficar aqui parado
Mulher cativa
Escuta o que te falo
Quero deslizar pelo seu corpo
Até que perdoes
Todo o meu pecado...

domingo, 8 de maio de 2011

ma... ma... ma...


(Música: Pedacinho do céu de Waldir Azevedo)



Meu pedaço
no céu
Paraíso
no meu sonho
Encanto
na existência
Amor
divinamente
humano...
Anjo
da mamãe...
Sonho
 encontrar
seu rosto
tocar
sua mãozinha
e ouvir
susurros
de
Ma... Ma... Ma...
em
nosso
Reencontro.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sim.



A partir de hoje vou dizer SIM
Dançar com o vento
Ficar presente no momento
Deixar o corpo todo sonhar que é sem fim
a dança, o orgasmo, o movimento...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Verbo Transitivo Indireto




Sou toda feita de palavras
Materializada na escrita
Grafada com letras de forma
Formando frases imcompreendidas

Sigo tentando alocar
cada palavra em seu lugar
Quebra-cabeça alfabético
Sem borracha para apagar

Estou sintaticamente construída
Preenchida frente e verso
Semanticamente perdida
Verbo transitivo indireto

.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Terça insana













Não sei quanto tempo vai durar minha terça-feira
Já ouvistes falar da terça insana?
Nenhum humor.
São dias e dias esperando pela recuperação
do susto de ser humano.
Com o passar do tempo
a dor não passa...
Mais dói
Mais se quer o que não se tem
Mais se lamenta pelo que se perdeu
Mais anseia pelo amanhã
que talvez nem amanhecerá.
Mais decide pelo não
Mais insiste em não rezar
Mais divide insatisfação
Mais duvida da dor de amar.
Essa minha condição
de a dor semear
vai virar exclamação
em todo verso que brotar...
E se a minha perdição
for todo dia morrer de tanto sonhar?
Então virá a constatação
Sou humana doente de amor
Sou mulher carente de ...mar...
Quero me lançar na sua areia flor
Te ver, te cheirar
Brincar de fazer amor
Mergulhar no seu calor
só pra perder o ar...

sábado, 23 de abril de 2011

Costura

Alinhavo os retalhos coloridos
Na costura dos meus pedaços.
Desde o meu nascimento
costuro uma túnica longa
que proteja meu corpo
que aqueça minha pele
que esconda a minha nudez...
Os retalhos que a formam
eu busco em cada dificuldade, em cada alegria, em cada conquista.
Uns se encaixam perfeitamente na costura,
Outros precisam de corte e adaptação especial.
Minhas vestes se formam de tudo o que eu vivo
a cor da minha roupa é produzida pela cor da minha energia...
O meu dia a dia torna a costura mais longa ou mais curta.
Ás vezes descosturo o que já está pronto
e começo tudo denovo...
Em outro momento, tento fazer remendos
e tampar os buracos... dia e noite.
Sigo costurando a minha roupa
Escolhendo os meus caminhos
Cultivando o jardim do meu coração
Aprendendo a lidar com os meus espinhos.
Hoje costuro mais um retalho vermelho
Agora preciso sair...
Tenho que encontrar mais retalhos.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Realengo: Luto, desconstrução e dor.





A professora de Língua Portuguesa que se deparou com o sujeito não pôde acreditar na oração que se impunha em plena aula: Homem invade sala de aula e atira em todos os alunos que seus tiros puderam alcançar.

A aula de gramática foi interrompida. Treze vidas foram abreviadas. O Brasil olhou para Realengo e chorou. Todas as escolas brasileiras se viram dentro daquela sala de aula ensanguentada. Aquela professora apavorada podia ser eu.

Saí da minha última aula do dia. Passos curtos, voz cansada, desgaste físico, dia normal. Chegando à sala dos professores desenhava-se uma cena de terror: Televisão ligada, professores atônitos diante de um triste pronunciamento do governador do Rio de Janeiro: "Esse foi um massacre escolar sem precedentes no Brasil."

Perdi a fome, fiquei muda, ainda mais cansada. Uma tristeza profunda tomou conta de cada célula do meu corpo. Saí sem me despedir. Fiquei fora de área. Aérea. Sem reação.

Cheguei em casa e o noticiário reafirmava:  Homem invade sala de aula carioca mata doze crianças e deixa doze feridos. Por quê? Por quê? Por quê? Cada batimento cardíaco pulsava o mesmo questionamento. Qual a história desse assassino? Como ele teve coragem de tirar a vida desses alunos?

A mídia indica várias possibilidades: Solidão, bullying, fanatismo, psicopatia. Como fazer o diagnóstico? As hipóteses são gritadas na imprensa, mas nunca obteremos uma explicação que seja, no mínimo, razoável.

Engulimos esse fato a seco. A força. Estamos entalados. A violência chegou na escola brasileira: aluno mata professor, professor bate em criança, assassino massacra alunos em plena aula, etc.

A escola não foi feita para isso. Violência é o oposto de Escola. A escola é a casa do conhecimento. É o lugar de descobertas, de autoconhecimento, de convivência. Como pode o aluno ir estudar e não voltar à casa? Como se explica o fato de um professor planejar a sua aula, ir trabalhar e ser executado pela intolerância?

Seguem mais perguntas silenciosas. Sem respostas.. Apenas ruído, choro, suspiro, dor de todos os professores, alunos e profissionais da educação que vivem na escola e a tem como único espaço em que se tem a chance de lutar pela transformação social.

Após 7 dias do massacre, ainda sinto-me dolorida. A escola brasileira está manchada de sangue. É preciso limpar o sangue da sala. É preciso lavar a alma. É preciso acreditar na evolução humana.

A partir de hoje, não vou ensinar apenas questões sobre o substantivo e o adjetivo. Vou ensinar a amar e a conviver com as diferenças. Vamos aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e APRENDER A CONVIVER!

Vai meu amor para todas as 12 crianças que foram brutalmente retiradas do nosso convívio. Um beijo de luz em cada coração...

Cristiane.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Estou morrendo...





Estou morrendo.
Não pertenço mais a essa vida
Não sinto dor já faz um tempo
Ausência de despedida...

Estou morrendo.
Passei pela porta de saída
Nem cansaço, nem partida
Pouco a pouco vou percebendo
Tenho tudo o que queria.

Nem choro, nem sofrimento.
De angústia despida
Pacificada em meu momento
Estou morrendo por dentro
Morrendo de alegria!!!!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Flor do Sol





Toda semana meu quarto recebe um girassol vivo. Lindo. Amarelo. Sorridente. Meu olhar pra ele é de emoção pura, olhar saudoso por sua vida tão curta. Parece tão inconsciente de sua efemeridade. Ou talvez, sua curta vida seja ainda mais longa que a média humana. Como medir e comparar? Impossível. Não se pode comparar coisas tão diferentes. Tudo é vida manifesta de forma exclusiva. Cada manifestação vital é única. Nasce, cresce, se reproduz, envelhece e morre. O ciclo é semelhante. Nunca igual.

Meu Girassol parece feliz. Dorme e acorda sorrindo. Vibra quando me volto pra ele. Gargalha quando dou as costas. Quanta independência emocional. Não é sempre assim, ele precisa de água e luz para vivenciar seus poucos dias. Isso vem de mim. Se fujo à responsabilidade, ele morre mais rápido: fica sem ar, cada centímetro de seu caule fica ressequido, começa a murchar, as folhas começam a se contorcer, se transforma em um bebê velho. Sorriso amarelo de tristeza. Seus dias serão encurtados e isso ele não pôde escolher. A escolha é minha.

Eu escolho cuidar, ou deixar morrer. A escolha dele já foi feita: Sorrir. Ele sorri sempre. Com sede ou satisfeito. Recém-nascido ou envelhecendo. Querendo ficar, mas indo embora. Sorri, mesmo que não tenha ninguém por perto. Nasceu pra ser feliz. É. Simplesmente é. Simplesmente sabe. Simplesmente sente. Simplesmente vive. Porque viver feliz é sua missão, por isso, vibra tanta energia que ilumina a existência de quem tem o privilégio de compartilhar do mesmo espaço.

Minha paixão pelos girassóis aconteceu há dois anos. Quando olhei pra um e percebi sua rotina: Ser esplendoroso, alegre e encantador. Passar todas as horas do seu dia girando na direção do sol, do nascente ao poente, na tentativa de aproveitar cada segundo de luz, de alimento, de força. Rotina intensa. Identificação imediata. Aconteci junto com essa descoberta. De lá pra cá, observo a flor do sol como a mim mesma. Com o tempo, fui observando em torno do quê eu estava girando, qual era o sol que eu mesma tinha estabelecido pra mim. Essas observações trouxeram as respostas para os meus porquês. Eu, girassol humano, escolho o sol em torno do qual quero girar: Relacionamento, dinheiro, filho, beleza, problema, filosofia, status social, sofrimento, abundância ou escassez...

 Está tudo dentro de mim: A flor do sol e o próprio Sol.


terça-feira, 22 de março de 2011

Caça-palavras


Procurei palavra. Qualquer insana letra que me devolvesse a sanidade. Elas vieram como quem procura um canal com a mesma sintonia, silenciei meu coração pela impossibilidade de silenciar minha mente. Não há exigências, apenas necessidade de espaço para que as palavras se materializem. Quanto mais barulho, mais folhas brancas. O advento da escrita se configura na decisão de parar aquele momento da vida, respirar profundamente, esquecer das contas atrasadas. Simplesmente aceitar a ansiedade da espera, aquietar um pouco e sorrir satisfeito. Quem procura acha.

 Terça-feira de procura desesperada. Todas as palavras lindas, cheias de significado, de forma, de vida própria, de entrelinhas que alimentam a alma estavam sendo desejadas, invocadas pra existência. Estava com fome de construções sintáticas reflexivas, sentimentais, eróticas, espiritualizadas. Pouco importa. Meu propósito é  me escrever no papel do mundo. Alcançar a benção da simbiose alfabética, onde não haja diferença entre meus átomos e minhas letras. Minhas. 

Elas vieram ao meu encontro. Encontro é para dois. Um tem de vir no rastro da sintonia do outro e se jogar. Acontece assim. Pensamento, desejo, decisão. Encantada. Me sinto enfeitiçada de amor. As palavras se jogaram em minha direção. Senti o perfume, a textura, o gosto. As reconheci imediatamente, identifiquei as suas formas, como dançavam sensualmente para mim! Como eram felizes na brincadeira da vida! Se faziam em versos, se juntavam em estrofes, transpiravam musicalidade. Sonhavam meu sonho. Pintavam minhas cores. Se apaixonavam por meus amores. Cumplicidade igual eu nunca vi.


Finalmente, sem nenhum ponto final - livre de qualquer conclusão - materializo o girassol de átomos e palavras que se fez nascer em amor. Com prazer. Terça geradora de ser. Produto inacabado, incompleto, que sonha em evoluir o modo como percorre o seu trajeto.  Retira o seu foco do ponto de chegada. Cai sempre que olha pro lado e recomeça  no impulso mesmo da queda. Achei mais um pedaço. Agora posso continuar a construção.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Faxina















Vamos limpar a casa
Toda sujeira da vida
Varrer o pó do piso
Abrir caminho para uma nova energia...

Vamos desobstruir os espaços
Tirar toda poluição visual
Limpar do peito o cansaço
Recolher as cinzas do que foi prejudicial

Vamos retirar os cacos de vidro do chão
Clarear todas as paredes
Mudar as cores e os enfeites
Parar de seguir pela contra-mão
Por entendimento, vontade, ação...

Vamos fazer jorrar água em todos os ambientes
Regar a alma sedenta
de água, de luz, de fantasia
Vamos fazer festa todo dia
Vamos encher a casa com poesia....

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

kinshasa

Do outro lado do oceano
Eu tenho amor
Fé, carinho, encanto
Derramamento, calor...
A distância não distancia
Dois seres enamorados
Dois corpos que se procuram
Órfãos apaixonados...
Pelos sonhos conectados
Os Quilômetros que se encurtam
De tanta vontade
Necessidade de ficar lado a lado...

Me completo em outro continente
Lá, onde está o amor
Extensão da minha pele, da minha mente
Que anseia daqui, desse pedaço do ocidente
Por seus olhos, seus lábios
Por seu cheiro, por sua cor...

Meu peito apertado
Espera por se entregar
Ao descanso dos teus braços
Lugar que escolhi para me hospedar
Kinshasa cuide de sua terra
Ame seu filho adotivo em missão
Daqui do meu Recanto eu rezo
Para que em paz devolva ao meu chão
Aquele que levou meu coração...

Traz de volta para o lar verde e amarelo
Aquele que ama o meu sorriso
Que chora o meu choro
O que faz raiar o sol em dia nublado
O que segura a minha mão com consolo
Aquele que enche meu coração de gozo
e me quer sobre todas as coisas:
Amada. Inteira. Livre. Pacificada.
Te espero amor para te oferecer repouso
O cuidado, o carinho, o afeto
Daquela que escolhe diariamente
Te ter por perto!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O vôo


          
         Voar sempre foi meu forte. Quando era criança vivia voando, percorrendo caminhos imaginários, mágicos, irreais. Pensava em como seria quando já estivesse crescida, independente, com meu carro vermelho, minha casa grande, e claro, casada com um louro alto, de olhos verdes e corpo atlético. Quem sabe até teria filhos, eu queria dois: um menino e uma menina. Também sonhava com o mundo, com as belezas naturais, com as garotas elegantes das novelas (nas quais eu me inspirava), e com tudo o que eu poderia ser um dia.

Dos sonhos noturnos já nem lembro mais, mas os sonhos que tive acordada cresceram comigo e fazem parte de mim. Uns sonhos mudaram, alguns concretizei, outros perdi no caminho e alguns outros aguardam o momento certo em que serão, enfim, realizados. Quando brincava de boneca, de casinha, ou quando jogava queimada ou bandeirinha na rua de casa não podia imaginar que voaria a 11 mil metros do chão, numa velocidade de 800 km/h. Não, isso eu não podia imaginar. Estar nessa altura, entre as nuvens, sobrevoando o Brasil nessa proporção (altura x velocidade) assusta-me e encanta-me de maneira especial. É incrível como a tecnologia encurtou a distância territorial e permitiu que fizéssemos esse tipo de vôo, diferente dos que fiz na infância, porém, não menos especial: é uma viagem.

Na infância, viajamos o mundo sem ao menos sair do lugar. Também viajamos de férias para um lugar, conhecido ou não, onde nos sentimos na obrigação de nos divertirmos, pois sabemos que tem hora e dia marcado para terminar. Mas há uma viagem mais importante: a vida.

Quando nascemos, embarcamos nesse vôo constante (o mundo), ao lado de outros tripulantes (a humanidade), com um destino não muito certo ( a felicidade) e com um detalhe essencial: a passagem de volta está comprada, com hora e data certa para o desembarque (morte). Porém, não sabemos qual é exatamente esse dia e essa hora. Nessa viagem, é preciso aproveitar cada segundo desse vôo, pois, diferente dos vôos da infância, ele não é imaginário e diferente do vôo das férias não sabemos a que horas iremos desembarcar.
Boa viagem!                                                                           
Cristiane Oliveira
Julho de 2008
(em vôo Porto Seguro-Brasília pela TAM)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Elucubração...

















Não fui avisada
de que sou apenas parte
tão distorcida e tão fragmentada
com pedaços de tristeza e solidão...
Descobri no susto
que a felicidade é um conceito da televisão
que a morte existe e vem pra todo mundo
que os momentos vividos hoje, não mais voltarão...
Ninguém me avisou
do perigo de viver olhando pra fora
do risco de viver buscando conforto no outro
da armadilha que é não cuidar de si mesmo
de que ser feliz é poder contemplar o pôr-do-sol.
Ah.. se eu soubesse
Teria estudado a arte de ser mulher
ao invés de querer assumir a castradora independência, masculinizada.
Teria cuidado do meu corpo e da minha sensualidade vital
ao invés de sacrificá-lo e desgastá-lo com comida e sedentarismo
Teria perdoado mais
ao invés de me corroer com a sujeira do orgulho...
Teria visto mais pores do sol
Teria amado mais
Teria convivido mais com a minha família
Teria vivenciado mais o potencial sexual da vida
Teria amado mais os meus amigos
Teria agradecido mais pelas bençãos do universo, que eu não via
Teria doado amor e atenção a quem precisa de ajuda
Sem medo, sem culpa, sem obssessão
Apenas viveria aquele momento, aquele dia
Sem ter de ocupar a maior parte do tempo com o trabalho
e usar a desculpa preferida da covardia..
Ah.. se eu soubesse.... teria buscado a harmonia
ao invés de dinheiro e realização material
Mas só aprendi no susto, no grito
na dor, no gemido...
Que esse aprendizado é infinito
enquanto durar o meu caminho de evolução...
Cada um escolhe
se descobrir, se aceitar, se amar, se cuidar, ou não...
Cada um escolhe
descobrir, aceitar, amar e cuidar do outro, ou não...
Cada um escolhe
a vida ou a elucubração.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Não te amo, meu amor!

Não te amo, meu amor...
Sinto seu cheiro
Busco seus olhos
Compartilho dos seus sonhos
Meu amor...
Nem quero imaginar
A possibilidade de te amar
Deus me livre de te querer
Ai de mim se eu te beijar

Não, meu amor
Não quero morrer de amar
Quero acordar na sua cama
Enxugar a sua lágrima
Quero beber da sua água
Sua fome alimentar...

Mas não venha me falar de amor
Isso eu não iria suportar
Quero misturar a nossa pele
Nossos sonhos, sonhar...

Mas saiba, meu amor, que eu não te amo
E nem sei se vou te amar
Quero sim estar a seu lado agora
Tomar sorvete, atravessar a rua
Sem o medo carregar

Quero te ter...
E quando você se afastar de mim
Meu amor
Eu vou lembrar que você pode ir
Eu ficarei aqui de você protegida
Pelo meu medo de te amar...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Retrato antigo



Sinto falta do homem que criei
Daquele que protagonizava meus sonhos
Que amava meus defeitos e minhas manias
O porto seguro da minha vida.

Tenho saudade do pai dos meus filhos
De compartilhar o dia a dia
De ser amada, de ser surpreendida
com uma vontade viva
de me fazer a mais feliz das mulheres.

Saudade do retrato antigo
do meu melhor amante,
do meu melhor amigo,
de quem sempre fará morada
em meu coração ferido...

Saudade da lembrança real 
dos sonhos que eu tive.
Agora... acordada
Reconheço que o tempo do meu sonho
Foi produto da minha fantasia
Projeção de uma vontade antiga:
Transformar romance em poesia...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Porta Aberta


Abri a porta da minha casa
De pé eu estava
De frente para o mundo
Com o coração na mão
Nenhuma grade de proteção
Apenas meu corpo exposto
em contemplação...

As janelas todas abertas
escancaravam minha decisão
Queria arejar o ambiente
Trocar o ar, varrer o chão...
Para isso precisava do vento
do sopro, do uivo, da circulação...

Inspiração. Expiração.
Batimentos cardíacos
desejosos de oscilação...
Fechei os olhos
Tirei as sandálias
à minha alma dediquei toda atenção...

Abri a porta da minha vida
pro universo entrar...
E assim, tirar a tristeza escondida
Devolver a alegria de sonhar...
Quem está com a porta aberta
pode acreditar no amor,
na capacidade de se sintonizar
Pode crer numa alma
Que deseja à outra se conectar...
É tempo de abrir a porta... 
pra amar!

domingo, 23 de janeiro de 2011

Presente


Quando eu olhei pra dentro de mim
Vi que nunca estive sozinha....
Só estava procurando companhia no lugar errado...
Esse é o tipo de coisa que não se observa por opção
A vida te obriga a olhar pra si mesmo
Até descobrir o Deus que mora em seu coração...

Quando você descobre que Deus sempre esteve em você
É como ganhar um presente...
Você começa a entender
Que o Universo sempre nos dá o melhor
E que o grande objetivo da dor, da morte, do sofrimento
É o encontro com a sua felicidade...
A sua, porque cada ser assume de forma diferente a própria verdade
o que gera para cada um um caminho de felicidade diferente...

Quando se vive o presente
Uma gratidão profunda ganha espaço
E você vai se tornando cada vez menos ausente no palco da sua vida...
A essa altura já sabe qual é a própria música
Já conhece a palavra do teu inconsciente
Aprecia a cor da sua alma
Se permite viver plenamente...

Meu coração está pulsando agradecimento
Estou fincada no meu presente
Decidi agarrá-lo com toda a minha força
Não vou abrir mão de nenhum segundo...
Sou abençoada.
Sou mulher, sou mãe, sou filha
Sou parceira, sou apaixonada
Sou viva, sou pecadora
Sou divina, sou humana
Sou saudosa, sou egoísta
Sou frágil, também sou guarida
Sou sonhadora, sou poetisa...


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Silêncio


Será mesmo que o silêncio é a ausência de som?
Duvido...
Alguns silêncios são mais ensurdecedores que um trio elétrico dentro do ouvido...
Basta se dispor a meditar
que a mente logo começa a barulhar
numa overdose de pensamentos cruéis e muitas vezes insanos...
Como é difícil silenciar!

Ausência de fala não é silêncio
Há muitas outras formas de comunicar
Outras tantas de refletir
Diversos jeitos de falar...
Inúmeros são os pensamentos
que nos tornam tagarelas mudos:
Tarefas a cumprir
Sonhos a realizar
Atividades que ficaram para trás
Metas de segunda-feira.

Não... isso não é silêncio...
De nada adianta silenciar tudo o que se tem em volta
Se o coração se inquieta, se aflige e se apavora:
Status, dinheiro, sobrevivência, amores, amanhã, medo,
doença, frio, calor, falta de alimento, sobrepeso, solidão...
O que é capaz de calar esses pedidos constantes?
Como acessar a paz de alma?
Esses questionamentos são, no mínimo, buscas interessantes...
É preciso refletir, é necessário questionar!

O verdadeiro silêncio está na alma
Não emite palavras, mas transborda de paz...
Não cobra ações, apenas agradece...
Não exige posturas, aceita o comportamento...
Não critica, simplesmente perdoa...
Não busca nada no mundo afora, pois está ciente de sua fonte de felicidade interna...
Silêncio que se sabe pertencente ao divino
e por isso mesmo é consciente de sua responsabilidade com o humano...
Silêncio que bate a nossa porta todos os dias
Mas precisa ser convidado a entrar...