terça-feira, 28 de setembro de 2010

Chuva


Sem pressa...
Peço para os meus lábios molhar,
estão secos.
O clima, minha respiração vem dificultar
o que explica o desejar
das pequenas partículas de salvação:
água.
Traga-me o cheiro da terra molhada
Apague as queimadas
Encha denovo os rios
Movimente o que parado está...
Inunda meu corpo
Passeia em meu colo
Desliza em minha pele
Refresca minha língua
Sem pressa...
Encha suas nuvens
Até derramar
Goteja sua vida
Chove em mim!

domingo, 26 de setembro de 2010

Maria no Clube do Choro (Parte II)


"Choro é cura! Eu experimentei"! afirmou Mario Séve numa emocionante apresentação no Clube do Choro de Brasília, no último dia 23. Mário Séve e David Ganc apresentaram uma seleção de incríveis músicas do Pixinguinha. Maria assistiu. Mais que isso, fez-se presente, num encontro leve e profundo com as mais belas melodias.


Chegou atrasada ao local, bilheteria fechada. Assustou-se. Não podia ir embora. Não iria mesmo. Havia um ingresso branco que a aguardava. Alegrou-se. Naquele momento, não mais havia reserva, poderia sentar em qualquer cadeira vazia. Apressou-se. Os músicos já estavam sendo apresentados quando, enfim, escolheu onde sentaria. Vizualisou uma mesa vazia. Vibrou por dentro. Seria inédito sentar numa mesa e assistir ao show sozinha. Nas outras vezes, Maria sentou-se ao lado de pessoas desconhecidas e se relacionou bem. Agora, de desconhecido só tinha a si mesma. Como iria se tratar? O show começou com a alegria melódica do Pixinguinha, alegria esta que se contrapôs ao substantivo choro, desenhando, assim, uma interessante metáfora. Contradição.


Seus olhos se fecharam com um som de flauta, num devaneio lento e quente. Aquele som impactava suas células. Pôde sentir a música e sua vibração-arte. Seus poros se abriam como que se alimentando. Estava Consumado.


Maria fez música. Uma leitora que escrevia o texto junto com o autor. Um instrumento com suas infinitas possibilidades de sons e melodias sendo tocado. Uma folha reciclada sendo grafada com cores, partituras, melodias impressas em letras douradas. Não mais expectadora, fez-se parte integrante daquela música. Sorriso. Aplausos. Lágrimas. Encantamento. Vibração sonora. Dança mental.


Ora dialogava com o palco, ora com suas próprias impressões. Os comentários que outrora fazia com seus companheiros de mesa, agora tomavam forma de susurros, palmas e gritinhos de vibração. Sentiu-se feliz ao perceber o clarão em seu rosto.


Um balde com cervejas geladíssimas e, para comer, pães de queijo suiço eram as suas companhias na mesa. As cadeiras a seu lado estavam vazias, mas não se sentiu solitária. Seu coração estava cheio, sua alma estava iluminada. Sentia-se em paz. Achava engraçado o jeito que as pessoas a observavam. Indagavam, curiosas, a presença daquela mulher loura, de vestido vermelho e expressão feliz. O que ela faz sozinha? Espera alguém? Quer encontrar alguém? Certamente, cada um tinha a resposta adequada ao seu ponto de vista.


Entretanto, talvez eles nunca saberão de sua história. Nunca terão as respostas reais. Naturalmente. Não há respostas para todas as perguntas. Mistério sempre haverá. Maria achou graça. Gargalhava com a vida. Achou a graça. A graça da vida. Talvez tenha experimentado a cura inicialmente referida pelo músico. Pelo menos, era como se sentia. Liberta. Inteira. Curada.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Carta à Maria Eduarda


Madú, amor da minha vida, obrigada por tudo o que você fez por mim!





Hoje a Maria Eduarda completa 1 ano de existência em minha vida. Por esse motivo, decidi homenageá-la publicando essa carta que escrevi na ocasião de sua partida para o novo mundo. 1 ano de dor, saudade, vazio, silêncio, paz, certeza de um reencontro!

Filha, te amo!

Sinta o meu amor no seu coração!

Fique em paz!


Brasília, 14 de setembro de 2009.


Madú,


Nem nos meus mais lindos sonhos achei que fosse possível sentir uma felicidade tão grande quanto a que passei a sentir com a sua existência em mim. 22 de janeiro de 2009, eu e seu pai ficamos sabendo que você já estava crescendo, linda e forte no meu ventre. Alegria, susto, felicidade, êxtase foram alguns dos vários sentimentos que sua chegada me proporcionou.
já não seríamos mais Cristiane e César, e sim, Mamãe e Papai. Já não seríamos dois, e sim, três. Uma família. Junto com você estava sendo gerada uma nova família, a família Lima de Oliveira.

A descoberta do seu sexo foi outra aventura pela qual passamos: seu pai que sempre quis uma menina, para contrariar, passou a falar que queria um menino, o que me confundiu um pouco, mas, no fundo, eu sabia que você era a tão sonhada Maria Eduarda.
Sim, filha, seu nome já estava escolhido por seu pai a mais de dez anos. Quando eu o conheci você já era um sonho dele e, com o amor, passou a ser o meu também.
Com quatro meses de gravidez veio a confirmação de que você era realmente uma menina. Uau! Mamãe ficou enlouquecida de felicidade e o papai ficou bobo, todo satisfeito! Só não ficou muito satisfeito por perder todas as apostas feitas com os amigos, inclusive comigo. Imagina, filha, só pra mim ele teve de pagar um mês de sushi. Mas tudo era brincadeira, diversão e pretexto para falar de você.
Logo em seguida, vieram as primeiras danças, sim amor, você dançava na barriga da mamãe de um jeito tão gostoso que eu parava qualquer coisa que eu estivesse fazendo para prestar atenção em você. E, eu tinha certeza que o que você dançava era, no mínimo, um forró! Oh, como se mexia!
Você tinha de ver a cara do seu papai quando ele viu sua dança pela primeira vez! Sabe aquela cara de abobalhado misturada com expressão de criança que acabou de ganhar a balinha que tanto queria? Pois é! Era a cara do seu pai impressionado com os seus movimentos. Bastava ele colocar a mão para você mexer no mesmo instante. Eu ficava até com ciúmes, mas era um ciuminho bom...

Filha, você estava crescendo tão rápido que decidimos arrumar seu enxoval. Compramos uma casa linda para você morar, montamos um quarto de boneca de pano, todo em branco e lilás, ficou lindo, perfeito!

Esperar você, sentir você crescendo, fazer suas ecografias, escutar (pela primeira vez) seu coração bater, planejar seu quarto, comprar suas bonecas, foram alguns dos momentos mais maravilhosos da minha vida!

Você me transformou em uma mulher completa, você me mostrou um novo jeito de olhar para o mundo, para a vida! Por isso, acredito que sua missão foi cumprida com louvor. Você foi designada para gerar e fazer nascer uma nova Cristiane e um novo César, mais humanos, mais determinados. Você nos fez nascer denovo. Foi você quem me devolveu a vida. Foi você quem me mostrou o melhor jeito de viver a vida!
O meu amor por você mudou a minha vida e até a minha relação com as pessoas. Com as próximas e com as distantes. As posições foram deslocadas: as pessoas que estavam distantes ficaram próximas e as próximas um pouco mais distantes.

Mas o que importa mesmo é que você saiba o quanto mamãe e papai foram felizes em todo esse tempo que você esteve sendo gerada. Rimos, ficamos encantados, abobalhados, algumas vezes assustados e muitas vezes embevecidos de prazer e alegria.
Eu te agradeço por tudo o que você me deu. Todas as emoções, todas as alegrias, todas as descobertas, todo aprendizado, toda felicidade...

Minha filha, eu te agradeço por esse amor que nós três construímos, você sempre fez parte da minha vida e sempre será lembrada como a primogênita, a filha mais velha que está morando, a partir de agora, num outro país. O país dos anjos, dos espíritos iluminados, o país do amor.

Sei que apesar da distância nosso amor e nosso pensamento estarão eternamente ligados!

Te amo Maria Eduarda Lima de Oliveira!

Ass: Cristiane, sua mamãe.



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Essência


Essencialmente me perdi
perdi o melhor dos meus sonhos
perdi o emprego que a mim parecia o melhor
o melhor dos meus versos
perdi o traçado daquele fabuloso plano
e a sensação de segurança maior

Me perdi no verde olhar daquele encontro
e ao longo dos anos, no meu próprio labirinto,
me escondi do espelho,
fiz minha auto-imagem em preto e branco
mas meu coração, eu pintei de vermelho

Vermelho que ora dava lugar ao laranja
ora ao amarelo girassol
ora ao verde cura
num revezamento vivo
ora preto, ora colorido
sob a sombra, sob o sol

Perdi o choro da madrugada
a dor e a alegria de alimentar (-me)
o olhar que era pra mim
e a mãozinha que a minha ia segurar
a primeira palavra
e o momento de engatinhar
me perdi debaixo daquela terra.

Me perco todo dia
numa ânsia desesperada de me achar
quanto mais numerosas as tentativas
mais certeza de que o grão morre
pra só depois germinar

Quando acha que se perdeu tudo
e que não há mais nada para ser desfeito
fica a impressão de que o que sobrou
é puro, a colorida essência
o que realmente não pode se perder:
o aprendizado, alguma dor, sensibilidade
o amor, simplicidade, verdade-ser
Todas as cores do arco-íris
o vermelho da vontade de viver!!!








quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O s l^n c o d s p l v r s .


A ausência da palavra é a morte
ausência do som, da textura, do significado
Um silêncio fúnebre num espaço nublado
a doce, fria e desesperadora calma...
A calma de não se ter o barulho significante
de não se ver o pulo das letras querendo significar
A calmaria do vazio atordoante
de não precisar das vírgulas para organizar...
Buraco negro... vazio de cores
de imaginação, de beleza, de sonho
cheio de poeira densa
de infinito ar
vazio de substância rica
substantivos não há
vazio de ação plena
verbos sem conjugar
Em tempo, algo parece querer gritar
E o clima de silêncio transformar...
É o vento que sussurra forte
para o silêncio tentar abafar
emite um som em forma de uivo
faz um esforço para silabar
A ventania com seu movimento
de levar e trazer coisas
que pra longe levou minhas palavras
agora tenta delas se reapropriar...
Os mais vivos e variados sons
assopro, suspiro, sussurro
inspiração, expiração
batimentos cardíacos,
avisam que se instalou o desejo de soletrar...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A entrega dos sentidos...


Mãos para tocar
Pés para andar
Olhos para observar
Boca para beijar
Coração para amargurar
a textura do que não foi sentido,
o chão que não foi pisado,
o pôr-do-sol que não foi visto,
o sabor que não foi degustado,
o momento que não foi vivido...
Mãos para acariciar
Pés para caminhar
Olhos para admirar
Boca para desejar
Coração para amar...
E com os ouvidos?
Com o ouvido apreciar
o som da música no ar
Ver cada poro meu dançar
Minha alma cantar...
De mim sair
Outros toques sentir
Por novos caminhos viajar
Em outras direções seguir
Mais alegremente sorrir
Com a vida me encantar
me apaixonar
me traduzir
me deslumbrar
me seduzir
E na entrega
descobrir
que amei
que vivi!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Solilóquio...


Sol...
Solto...
Solidário....
Solícito...
Solstício,
Solda os pedaços...
Solta da prisão...
Solve a escuridão...
Soluciona a sombra...
Aquece e inflama
o ser
que se derrama
de tanto querer-te
Chama....
de tanto querer-te
Amor...




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Querer...


Querer significa falta
falta não significa querer...
O querer só se materializa na ação
e agir é arriscar-se.
O homem se protege do risco...
Por quê?
Por que já se acostumou com a falta?
Por que tem uma vontade rasa?
Não se tem resposta,
são poucas as perguntas que as tem.
Pessoas em seus variados ciclos existênciais
Cada um vive o seu momento particular
Quando um quer, o outro ignora
Quando o outro se encanta, o um se apavora...
Roda gigante, cada um numa ponta
Desencontros nos possíveis encontros
Namoros ficcionais
Casamento atrofiando a relação
no pleno laboratório da convivência...
O encontro impossibilitando o encontrar!
Isso só é possível porque é vida
Vida viva, dinâmica, transformadora
Vida gerando vida...
pela dor, pelo choro, pela crise
crise do ser, do ter, do conviver
Crise do não saber, do conhecer, da clareza
Crise de não querer o querer...

domingo, 22 de agosto de 2010

A vida em trânsito...


Trânsito brasiliense
lento, solitário, parado, impessoal
luzes no retrovisor
muitos farois
os carros passam na faixa lateral
só o meu carro está parado...
Ando um pouco
Não demora para o freio de mão
ser mais uma vez acionado
Alguns carros querem passar para a direita
Outros seguem pela esquerda
Alguém tem de freiar
abrir passagem
Exercer gentileza...
Uma pessoa em cada veículo
Nada de caronas
Cada um com seu som
Cada um com a sua vida
Seguindo um caminho individual
Ora pegando um atalho
Ora buscando uma trilha tradicional...
No engarrafamento
Um motorista prefere o ponto morto
Outro, com sangue quente,
pisa resignado no freio e na embreagem, tem pressa.
Escolhas...
Mal sabe que vida é sinônimo vivo de transformação
O trânsito lento vai voltar a fluir
O solitário motorista vai chegar a seu destino
Esperar pelo novo dia
e pelo próximo engarrafar
pelas horas perdidas
em seu caminhar
No passar dos dias perceberá
que ação gera sentimento
e que num momento o sol nasce
mas depois nasce o luar
Que, por sua vez, ao amanhecer
devolve ao sol o seu lugar...
O trânsito agora lento
começará a descongestionar
Em questão de tempo
Já poderás partir
pra família voltar
Cantar alto, sorrir
descansar, se alimentar
Dormir agarrado no sonho
Pra com ele despertar
E denovo decidir
que vai ser feliz
mesmo quando um engarrafamento surgir
mesmo que a dificuldade insistir
em chegar, em ficar...
Trânsito.


sábado, 21 de agosto de 2010

Maria se encontra no Clube do Choro de Brasília...


Maria acordou com um novo desejo. Gostou tanto da novidade que é sair só que resolveu mais uma vez se aventurar. Dessa vez escolheu o Clube do Choro de Brasília. Pensou em uma rápida definição: seria um lugar onde as pessoas se reúnem para chorar? Será? O por quê desse nome? Não poderia ser clube da música? Do violão? Da batucada? Ah... não! Não poderia obter essa resposta, a menos que fosse conferir com os próprios olhos. O coração chegou primeiro. Acelerado. Batendo forte. Estacionou o carro e foi até a bilheteria. Fila. Via muitas pessoas acompanhadas, e, sorriu de satisfação. Estava fazendo diferente. Sabia que precisava mesmo romper com as velhas companhias solitárias. Ela queria o mundo. Com todas as suas saborosas cores, com todos os sons, os perfumes e os bichos. Precisava estar só consigo. Inclusive com os próprios bichos. O ingresso indicava a mesa de número 45. Chegou sucumbindo em timidez, para tomar posse de uma das quatro cadeiras disponíveis. Isso mesmo. Sentaria ao lado de três pessoas desconhecidas. Com o ingresso e o coração na mão, mais uma vez, conferiu o número da mesa para não dar vexame. Quando olhou o lugar se surpreendeu: Se sentiu no Rio de Janeiro da década de 50. Estrutura circular, mesas rodeando o palco, garçons, pessoas de diversas faixas etárias. Meia luz. Palco vibrante. Cheiro de História. Depois de avistar a mesa, se aproximou, cumprimentou os colegas e sentou-se. Não pôde acreditar quando enfim se acomodara. Parecia ter passado uma eternidade até aquele momento. A casa estava cheia. A Spok Orquestra iria tocar. Até então, não sabia o que significava a palavra Spok. Um músico, uma banda, um instrumento? Digamos que ele era tudo isso. O Spok do frevo jazz. O Spok de Pernambuco. O Spok da alegria do frevo ou do frevo da alegria? Não importa. Simplesmente Spok. Um músico, um maestro, o comunicador de sentimentos.

Sim, meus caros leitores, Maria foi ao clube do choro para ouvir choro, e acabou ouvindo Frevo Jazz da mais alta qualidade. A cada música uma aula à parte. Aquele lugar estava cheio de Pernambucanos, com cara e clima de Rio de Janeiro, era o nosso Brasil. Maria e a música do nosso Pernambuco Brasileiro. Sorria, se emocionava, vibrava, batia palmas. Diálogo vibracional. Um surpresa no palco: Jorge Marino, a representação do frevo em Brasília, subiu naquele santuário musical para dançar frevo, com todas as cores do seu mini guarda-chuva. Jorrando energia. Caindo. Pulando. Vivendo. Bela homenagem. Ele é uma homenagem viva para a vida! 70 anos de homenagens dançadas, puladas, sorridas.

Intervalo. Fez-se um silêncio desejoso de ser quebrado pelo Sax Spokiano. As luzes voltaram a acender. O tempo parou. O palco renasceu. Burbúrios nas mesas. Maria queria para alí. Se fixar. Se concentrou numa tentativa de eternizar aquele momento: um, dois, três. Não adiantou, a vida continuou a girar. O relógio nunca pára. A vida não parou. A orquestra não queria parar de tocar. Spok tocou uma sequência que contagiou a platéia de tal forma que todos se levantaram e começaram a cantar e dançar. Marchinhas deliciosamente cantadas de forma uníssona. Hinos. De celebração fez-se o clima daquele lugar. Alguém comentou que fazia muito tempo que o clube do choro não sacudia daquela forma. Maria ouvindo, pensou: Estreia. Era a estreia dela naquele universo. Se sentiu presenteada. Inundada de sentimentos musicais. Chegou só, mas de volta pra casa, nunca sentiu sua alma tão bem acompanhada.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Quarta-feira de dor...


Fácil falar da dor...
Difícil é sentí-la...
Fácil falar que vai passar...
Difícil é esperar esse momento...
Fácil explicar que tudo é passageiro
como a chuva
como o frio
como o vento
como o tempo...
Difícil é viver desse modo tão atemporal
Difícil ser resistente a tanta mudança semestral,
mensal,
diária...
Um minuto
e o dia acabou,
Um minuto
e a oportunidade passou,
Um minuto
e o céu escureceu,
Um minuto
e o que era bom se perdeu...
Todos os dias
pra treinar o desapego
pra perder o medo
de perder...
Todos os dias
pra aprender a lição:
o que aconteceu ontem
está do outro lado da ponte
que já caiu...
Não se tem mais acesso
Querer voltar e refazer, impossível
Já está no tempo passado, inacessível
O que aconteceu ontem, imutável...
Não é fácil,
mas é preciso desse passado se desapegar
Dos fatos,
apenas absorver o impacto e logo o canalizar
Da desconstrução,
recolher os cacos
e quantas vezes for necessário
bater a poeira, olhar pra frente
pra um novo modo de viver, reiventar...
Choro, desespero
dor, tristeza
Fazem parte de um todo:
Vida.
Viver é correr o risco de sentir dor...

Dia nublado


Quando os questionamentos
invadem a cabeça
paira a dúvida:
que caminho é esse que estou percorrendo?
Quando a tristeza
invade o coração
vem a pergunta:
até quando continuarei sofrendo?
Perda, morte, embaraço
dor, agonia, cansaço
luta diária
contra uma dor que não passa.
Por que não passas dor?
dê uma trégua pra minha alma
deixe-me girar... preciso girar...
tire essas nuvens do meu céu
não quero sentir mais esse gosto de fel
não quero mais me entristecer e chorar...
Por favor,
dor...
Tire essas nuvens do meu céu...
Deixe o meu sol aparecer
Eu preciso me alimentar
me nutrir, me recuperar
pra amanhã me abrir
florescer
me alegrar...


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Derramamento...


O derramar da vontade

em mim aconteceu

quando a minha boca te conheceu

e o meu corpo iniciou uma busca pelo teu...

O derramar da vontade

em mim se iniciou

quando a nossa pele se encontrou,

contrariando qualquer senso de realidade...

Quando eu te enxerguei

O derramar da vontade

quis me invadir

sem resistência eu fiquei

diante do nosso sorrir...

Quando eu dei por mim

somente ao som da sua voz eu queria dormir

sonhava que minha pele com a sua se encantava

e que em mim a necessidade morava

num pleno e intenso fluir...

Quando eu me apaixonei

pela nossa arte

estávamos eu e você escrevendo poesia

e descobri que de mim você era a parte

que outrora não tinha...

Mas o derramar do copo cessou

Agora o copo está apenas cheio

não derrama mais

Pra não esquecer a efemeridade

não derrama mais

Pra lembrar que tudo tem data de validade

não derrama mais

Pra mostrar que a troca mútua já foi realizada

não derrama mais

como uma constatação de que a missão desse amor já foi cumprida

logo veio a verdade

a vontade está viva, apenas não derrama mais...




domingo, 1 de agosto de 2010

Lua loura


Lua

Lua linda

Lamparina lunar

Leia-me

Limpe-me

Lua loura

Leve daqui todo pesar

Lascívia, lamento

Loucura, luto

Leve...

Lua límpida

leia-me

literalmente

literareamente

lave-me

com seus banhos de luar...

ensina-me

a ser como você:

densa e leve

clara e forte

crescente, minguante

nova, cheia

capaz de flutuar...

Sinestesia


Estesia

sentimento, sensações, emoções

para viver o todo

para não se resguardar do risco de ser feliz

para nao ficar adormecido

para ser pleno

choro e riso.

Abaixo a anestesia!

Não paralisar as possibilidades

pra fugir da dor

Não anestesiar a vida

para deixar de pagar o ônus intrínseco.

Fugir da estesia é sinônimo de suicídio

Ser moribundo no paraíso

Rico sem comida

Justiça sem juízo

Amor sem amar.

Diga sim à vida

sim à dor e à alegria

SINestesia...

Maria e a dança, um encontro.


Maria se decidiu. Iria mesmo sair para dançar. há muito se devia isso. Adiava, adiava e sempre deixava para depois. Não, dessa vez faria diferente, iria mesmo sair para se divertir. Não ligou para ninguém, até lembrou da Sebastiana, da Jandira, porém, aquele seria o dia escolhido: sairia sozinha. Levantou ofegante do sofá, foi até o quarto, abriu o guarda-roupa e a indecisão tomou conta de sua cabeça. Com que roupa iria? Pensou em vários looks, coçou a cabeça e começou a experimentar várias combinações de roupas. Jogou todas as opções em cima da cama, espalhou sapatos pelo chão, seu quarto fervilhava como seu coração.



Vestido branco rodado e sapatilha preta foram os escolhidos para aquela noite. Tirou a roupa em que estava vestida, se enrolou na toalha e foi tomar banho. Em seu pensamento se desenhava as possíveis imagens daquela noite: Como iria chegar ao local sozinha? Encontraria alguém conhecido? Quem estaria tocando? Como seria essa primeira experiência? As cenas passavam em sua cabeça como em um trailler de um filme de ação. A água quente começou a molhar seu corpo, sentiu relaxamento e conforto, gostava de água, gostava da massagem da água em suas costas e pescoço, gostava da energia vital que ela transmitia. Para Maria, tomar banho era um ritual de limpeza, não somente de higiene corporal, tratava-se de uma limpeza mental e energética, se sentia mais leve e preparada para qualquer coisa.



Desligou o chuveiro, se secou rapidamente pois não podia perder tempo. Voltando pro quarto, outro ritual: cremes, óleos, perfumes, maquiagem, olhos bem marcados, boca vermelha, vestido branco e flor vermelha no cabelo. Estava pronta! A partir desse momento estava preparada para o desafio.



Saiu de casa feliz, ligou o carro e seguiu ao encontro da dança. Em 40 minutos chegaria ao seu destino. Já estava acostumada a longas distâncias. Em Brasília, especialmente para quem vive nas satélites, convive-se com engarrafamentos, trânsito lento e com perda de algumas horas só em trajetos. Rotina.



Chegou ao "dancing", estacionou o carro e sorriu satisfeita por estar ali. Do estacionamento já ouvia o som da flauta característico do forró pé de serra, o que a deixou ainda mais alegre. Olhou pro céu, viu que era noite de lua cheia e se emocionou com uma visão tão linda. Parou para ouvir o som da água do Lago Paranoá batendo no cais - sons renovadores - sentiu o vento acariciar seu rosto e suspirou, carinhosamente, em tom de agradecimento à mãe natureza.



Começou Maria a dançar, percebeu que estava meio enferrujada, afinal, foram quase dois meses sem prática. Dançou várias músicas e suou um suor que lubrificava sua alma. Olhava a seu redor e o que via chamou sua atenção: Ali, naquele lugar, as pessoas dançavam como em missão. Dançavam para serem felizes. Mais que isso, ali elas podiam expressar suas emoções por meio do corpo.



Dançar não era flertar. Dançar era viver. Dançando sentia cada parte do seu corpo sendo oxigenada, sentia o coração acelerado, sentia o olho brilhando, a alma ardendo e a pele suando viva. O som feito pelo Forró Lunar, a lua feita pra iluminar, a noite feita para se divertir, aquele momento feito para aquela mulher, aquele lugar nomeado por lugar-laboratório. Experiência realizada com sucesso!



Orgulho, satisfação, superação. Maria foi para casa satisfeita com os resultados obtidos em seu laboratório. Agora, dormiria com uma certeza: Queria voltar a sair sozinha para mais uma vez se encontrar. Já marcou. Seu próximo encontro será no Clube do Choro de Brasília. Maria, dance, se encante, se entregue, siga Maria!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Toda noite


Toda noite

palavras sussurradas ao pé do ouvido

Toda noite

uma espera por seu gemido

Toda noite

sonho sonhar você

Toda noite

me possui o desejo de te ter

Toda noite...

Ah... todas as noites de céu aberto

Todas as noites enluaradas

Todas as noites com suas estrelas intocáveis

Todas as noites com seus mistérios

Todas as noites com suas possibilidades

E eu quero só uma: Tocar você!

Toda noite

adormeço com meus pensamentos

Toda noite

aconteço em meus sentimentos

Toda noite

agradeço por meus momentos

Toda noite

enlouqueço de te desejar...

Toda noite espero que você venha me visitar

e oferecer-me sua saudade na chegada

Toda noite espero que você venha me encontrar

e entregar-me seu carinho na madrugada

Toda noite espero você chegar

pra com um beijo quente te mostrar

o quanto a próxima noite é esperada...

Toda noite.



domingo, 18 de julho de 2010

Presença x Ausência


Hoje te olhei


e não te encontrei


não estou mais conseguindo te enchergar


sinto você muito longe


fora do meu alcance


já não podemos nos encontrar...




Vontade, desejo


Paixão, carinho


pele, toque


Conversas intermináveis


poemas, escritos


Tudo esta vivo em nós...




Não determinamos as circunstâncias


nem as necessidades, nem os excessos


Não controlamos nada


tudo está fora do nosso controle


o que traz a surpresa como vantagem


e a ansiedade como penalidade...




Não quero que você se vá


mas já não depende de mim,


os sonhos que você me trouxe vão ficar


as doces palavras de amor também...


A nossa poesia em mim vai se eternizar


seu gosto em mim vai permanecer,
Do calor disso tudo
não vou conseguir fugir...


Ah! se me fosse possivel pedir


pediria pra você não partir


pediria pra você ser feliz!
















domingo, 11 de julho de 2010

Retrato


Fazem parte de mim

constituem minha estrutura

estão presentes em minha formação

são parte de minha história:

meu defeito, minha limitação,

meu mistério, minha memória.

Fazem parte do meu ser

os incensos, os elementos de energia

terra, ar, água, fogo,

o toque, a admiração pela lua,

os cristais, a poesia,

a busca pelo simples, o ficar nua.

Constituem meu corpo

minhas estrias, minhas curvas,

cada centímetro de pele desejosa,

minha cicatriz, minha temperatura,

olhos de jabuticaba, vontade impetuosa,

impetuosa vontade de ser.

Também o fragmento, a dúvida,

o medo, do amanhã a angústia,

proporcionalmente, a resignação em viver,

a tentativa de se apropriar do meu eu,

a contradição de tentar planejar

um futuro que é

simplesmente independente

dá voltas na vida, nós no rio,

surpreende e incita

ao movimento, à superação,

à luta,

impõe o desafio.

Eu com minhas dores

cada um tem a sua,

Eu com meus amores

que vem e vão, em sua missão particular,

Eu com meus sabores

wrap, sushi, tarte tatin,

piqui, queijo brie, suiço,

suco de couve, tapioca,

hum... comida da minha mãe,

Eu com minhas cores,

o branco tão presente em mim hoje,

o amarelo girassol, e do sol,

o verde curador, e o azul do mar que harmoniza,

também o bege, o marrom, diariamente, compondo-me.

Eu e o que acho que eu sou,

Eu e minhas descobertas

destruindo e construindo,

racionalizando e intuindo

as várias faces do meu rosto.



segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ontem...


Comecei ontem...
Não era minha pretensão.
Seu olhar pra mim
tocou fundo
sua boca, seus sussurros
sua poesia pra mim.
Não era minha intenção,
mas começou antes de ontem...
meu corpo iniciou uma busca
por tua pele, teu cheiro e teu calor
e então meus olhos brilharam
em sua direção
pra dizer que te queria
que saudades sentia
e que por tua causa a respiração eu perdia.
Começou ontem...
boca seca, abstinência efervescente
delírios diurnos em pleno expediente
frio na barriga, coração quente
solidão, eu sem você, vontade permanente.
Começou ontem...
Ainda há tempo para fugir
é só escolher a porta e abrir
basta decidir
abrirei a que me leva até você
ou a que me ajuda a daí sair?
é fácil, basta querer
é simples apagar o fogo e resistir... ou não?!
Será? Como fugir do que faz bem?
Se ao menos houvesse
uma ligação perdida
Se pelo menos tivesse
o vazio de um espaço...
Mas entre a minha pele e a sua
só há suor e desejo
Entre a minha boca e a sua
só há sussurros, juras de amor
conversas intermináveis, beijos inesquecíveis
risos, gargalhadas, mordidas
Entre meu celular e o seu
só há poesia e vontade de se teletransportar.
Queria apenas uma brecha entre nós
somente uma que me permitisse ir
mas, a cada dia me pego entre mais nós
que me prendem à você
contradizendo a necessidade de partir.
Comecei antes de ontem...
a não querer ir embora
a prever uma erupção
sim, de dentro pra fora
Comecei ontem a perceber
que, além de querer esse homem
em mim já existia um vulcão
à espera de sua aparição
para sem pressa
em chamas de paixão se derreter...