segunda-feira, 18 de julho de 2011

domingo, 17 de julho de 2011

Desejo de Mulher


















Preciso de um homem
              que tenha defeito
e se permita viver
              sem ter de ser perfeito.
                                 
                                 Sem precisar pedir desculpas por SER...

Preciso de um homem
             que transgrida minha lei,
me tire do comando
             e me mostre o que ainda não sei.

                           
                                    Sem precisar ser autoritário...

Preciso de um homem
             que por ser quem é
suspenda a minha respiração
             e coloque em xeque minhas certezas.

                                  Sem precisar tirar o meu chão...

Preciso de um homem
             sensível e selvagem
gentil e decidido
             que faça amor e sacanagem.

                                  Sem precisar de libertinagem.

Preciso de um homem
              que movimente a relação,
que tenha vontade própria
               e me diga não!

                                  Sem precisar desconsiderar minha opinião.

Preciso de um homem humano
              com seu conflito, sua alegria, seu tesão
Que vai me encantar em seu descaminho
              e me encaminhar em sua direção.

                                   Sem que precise me perder na razão.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Poema sem poesia














Minha maior tristeza
não é a saudade da minha filha
nem a certeza
de que tudo é passageiro...

Minha maior tristeza
não é o salário
desvalorizado
em meio as dívidas...

Minha maior tristeza
não é esse amor que nunca cicatriza
e sangra e sofre
e agoniza...

Minha maior tristeza
não é o meu aluno
violentado, negligenciado
maltratado, órfão de pais vivos...

Minha maior tristeza
é agora
quando as palavras fogem do papel em branco
eu escrevo, e apago.
Penso em um assunto, e ele se mostra outro...

Minha maior tristeza é a falta de inspiração.

É o momento em que não sou salva
da saudade
da dívida
do amor platônico
da comiseração humana.

Sem a poesia,
tenho que viver na minha casa
vestir as minhas roupas
atender pelo nome que me foi dado
sentir as minhas dores diárias
e conviver com a minha condição humana.

Só me liberto, quando sou reescrita pela poesia!

domingo, 3 de julho de 2011

Espelhos d'água


Qual o símbolo gráfico de um suspiro? Não sei. Não há. Pergunto na esperança de registrar os suspiros dele pra mim. Uma noite inteira de olhares desejosos de aproximação. Despertou-se a curiosidade em saber  do conteúdo daquele imã que atraía nosso calor, nossa vontade de ficar perto, nosso carinho. Qualquer instante a sós e a oportunidade de se beber intensificava a sede. Negação. Mentiu-se o desejo para evitar a necessidade.

A cena de amor que se desenhava, aconteceu em um buteco deliciosamente ornado de cerveja gelada, servindo conversa boa. Mesa rodeada de amigos apaixonados pela arte. Papo compartilhado por gente interessada na vida e em gente. Um violão sambava Cartola e as notas vinham pra mim. Meu espelho brilhava de contentamento. Felicidade é poder ter amigos de botequim. Eu os tinha naquele momento. Com exceção de João.

João não olhava os meus espelhos. Gesticulava, conversava com todos os amigos à mesa, fixava o olhar na minha boca. Mas, dos meus olhos fugia feito menino andando de bicicleta na contra-mão. João era professor - um comunicador nato, apaixonado pelas palavras. Pintava palavras no papel. Formava arco-íris com cores jamais vistas. Transformava uma vogal em sol. Depois cantarolava os sóis no jardim alheio. E todos floresciam.

Naquele dia ele não me olhava, mas ao me ver suspirava. Eu li. O suspiro escrevia: - Te quero! E eu lia. Um querer cheio de desejo que desligava o mundo pra acender o coração. Eu ria. Ria de sua adolescência despertada e de sua falta de jeito. Eu ria e derretia. Um a um, os amigos saíram de cena. Eu fiquei com meus espelhos d'água acenando pra você, jorrando rimas perfumadas. A partir daí, ficamos a sós para sair da solidão.

João não me olhou. Num abraço, juntou seu corpo ao meu tornando desnecessária qualquer declamação poética. Naquele momento, João se fez poema na minha boca e me fez fechar os olhos.

domingo, 26 de junho de 2011

Gravidez às avessas - Homenagem a Bruno Gouveia e seu filho Gabriel




Choro junto com o vocalista do Biquini Cavadão, Bruno Gouveia, que perdeu seu filho, Gabriel, de dois anos num acidente de helicóptero na Bahia, no último dia 17.

Perdi minha filha, Madú, a 1 ano e 9 meses. Sou uma mãe sem a filha no colo. Ela voltou pro meu ventre e virou semente de vida. A dor não passa. A alegria de ser mãe também não. Os sentimentos vão convivendo às vezes pacificados, às vezes não. A vida anda. Não aconteceu somente comigo e com o Bruno. Milhões de  mães e pais são amputados em seu instinto mais visceral: a proteção de seu filhote. A vida nos assalta no susto. Um segundo e descobrimos o quanto somos impotentes. Seguimos mancando, se apoiando na esperança de revê-los. Seguimos tentando ser melhores. Seguimos tentando preservar o que eles deixaram de melhor em nós: O amor incondicional. O amor pela vida. A vontade de fazer valer a pena o fôlego do último minuto. Força pra todos nós mães e pais de anjinhos!

Bruno,

  Reproduzo aqui o poema que você fez pro seu Gabriel, mas que a partir de agora escreve a minha história com a Madú também:

"a morte de um filho�
é uma gravidez às avessas
volta pra dentro da gente
para uma gestação eterna

aninha-se aos poucos
buscando um espaço
por isso dói o corpo
por isso, o cansaço

E como numa gestação ao contrário
a dor do parto é a da partida
de volta ao corpo pra acolhida
reviravolta na sua vida

E já começa te chutando, tirando o sono
mexendo os órgãos, lembrando ao dono
que está presente, te bagunçando o pensamento
te vazando de lágrimas e disparando o coração,

A morte de um filho é essa gravidez ao contrário
mas com o tempo, vai desinchando
até se transformar numa semente de amor
e que nunca mais sairá de dentro de ti.

Fiquem com Deus! E que Ele tenha piedade de nós."

Bruno Gouveia

Solução


















Para o doente,
saúde.
Para o faminto,
comida.
Para o sedento,
água.
Para o desabrigado,
casa.
Para o desempregado,
trabalho.
Para o pedestre,
carro.
Para o sobrevivente,
dinheiro
Para o solitário,
paixão.
Para o excitado,
sexo.
Para o frígido,
tesão.
Para o solteiro,
namoro.
Para o separado,
reconciliação.
Para o acomodado,
desejo.
Para o mal casado,
separação.
Para o carente,
atenção.
Para o desesperado,
consolo.
Para o perdido,
direção.
Para o desacreditado,
esperança.
Para a morte,
reencarnação.
Para a insatisfação humana,
qual a solução?

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Herança



Te amei de um jeito que você não queria
Você queria tudo o que eu não tinha
Romance, entrega, amor

Pisei no tapete vermelho que você estendeu
Enchi meu quarto com os girassóis que você escolheu
Minha vida se inundou com seu eu...

Na nossa descoberta 
acessei outras cores
inesquecíveis sabores
filmes entre os cobertores...

Te proporcionei o cuidado
paixão no paladar e no tato
Fiz conhecida
minha vontade de amá-lo...

Não foi realizado
o desejo de ficar lado a lado
Meu coração não estava preparado
para se juntar ao seu!

Separados,
herdamos o amor e o cuidar
Na constatação do fato
que cada um deu o que tinha para dar...

O coração agora triste
vai se reiventar.
Tomar posse da herança, 
Juntar a alegria e a esperança
para recomeçar...

















segunda-feira, 13 de junho de 2011

Bem-me-quer... mal-me-quer....

Bem-me-quero
sorrir

Mal-me-quero
desiludir

Bem-me-quero
experimentar

Mal-me-quero
censurar

Bem-me-quero
contribuir

Mal-me-quero
reprimir

Bem-me-quero
tentar

Mal-me-quero
desertar

Bem-me-quero
expandir

Mal-me-quero
desistir

Bem-me-quero
sonhar

Mal-me-quero
partir.

Bola de sorvete










A vida é uma bola de sorvete
deliciosamente saboreada...
mas, não "dê mancada"!
Não demora nada:
e ela volta a ser leite.

Posse dos dias!!!




Segunda-feira
é dia de luto
É quando se sai da vivência
para a sobrevivência
É o grande dia do absurdo!

No fim de semana
o compromisso é com o bem-estar
o relógio não chama a atenção
não se anda na contramão
do destino humano: a alegria...

Quem dera todos vivessem enquanto trabalham.
A grande maioria trabalha para viver
E a vida vai passando
dia após dia
E não espera por você!

Como é triste
passar a semana inteira
esperando pelo domingo
Quem determinou que a alegria só pertence ao ócio semanal?
Quero todos os meus dias, já!

Quero ser feliz na segunda
na terça quero ser poemetriz
quero festa na quarta-feira
na quinta quero clube do choro
quero samba na sexta
no sábado quero sair de mim...

Domingo quero rezar pro papai do céu
acalmar o coração
Comer comida de mãe
descansar na rede
Comemorar a vida que não acaba na segunda
Apenas reinicia outras atividades.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Vogais




A...MOR.
E...STIMA.
I...NTENSIDADE.
O...RDEM.
U...TOPIA.


Meu corpo  já carrega as consoantes
minha busca é pelas vogais.

Segue a procura
que não acaba no cemitério

Segue a vida
soletrando os dias

Trocando as letras
impondo mistério

Sigo a vida
reiventando modos de viver

Nasço a cada manhã
morro em cada anoitecer...

domingo, 5 de junho de 2011

Quarto de hotel














Apeguei-me a tua pele.

Desnudos, os nossos olhos se admiravam
surpresos com o mel profundo materializado no olhar
atraídos, traídos pelo magnetismo que silenciava a voz.

Se beijavam nossas almas
encantadas pelo primeiro encontro
vivido, saboriado, desejado.

Dialogavam nossos corações
enquanto tratávamos de parar o relógio
na vida que acabávamos de inventar.

Daquele instante era feita a nossa existência
não toda, mas toda inteira
como a imagem da última lua cheia.

Confissões sem solicitação
compartilhamos nosso dia-a-dia
sem compartimentar nossa energia.

Ficamos parados naquele quarto de hotel
experimentando... experimentando... experimentando...
Apenas comendo do banquete que se oferecia à mesa.

Iguais a todos os hóspedes.
Desiguais de todos os seres.
Nascendo e morrendo junto com cada célula do nosso corpo.










quarta-feira, 1 de junho de 2011

Se - pa - ra - ção

       





        Não se trata de separação silábica. Falo daquela que te isola de parte da sua vida. É quando você precisa criar uma pasta nova sem seu HD vital. E transferir para lá todos os sonhos perdidos, as frustrações, as mágoas, as dores, as lembranças e os sentimentos. Eles são você, fazem parte de sua vida, de sua formação. São indissociáveis. 
         O nome você pode tirar. O sentimento de fracasso não. De casa você pode mudar. A lacuna que fica não. Ela te acompanha a qualquer lugar. Perdas e ganhos: inseparáveis. Ex-marido. Ex-mulher. Ex-sogros. Ex-família. Os filhos permanecerão. Manterão as famílias unidas na doença, no aniversário, no natal, na formatura. Laço de vida. As características marcantes dos pares serão relembradas a todo instante pela cria. Continuidade do casamento. Ponto de convergência da família. Inevitável. 
          Hora de rever a vida. Se separar da baixo autoestima e doar amor a si mesmo. A muleta quebrou. Não tem ninguém em quem jogar a culpa pela sua infelicidade. O jogo está 0 x 0: você contra sua mente e a decisão está na tua mão.
           Separar-se significa casar-se consigo mesmo e conviver com seus anseios e sua própria limitação.

domingo, 22 de maio de 2011

Encontração

        




        Perdeu o voo para São Luís. Mario Quintana não a deixou partir. O portão de embarque era o de número 11. Só conseguiu chegar até o portão 3, onde havia uma livraria bem em frente. Encontração. Drummond estava lá. Clarice também. Não achou carpinejar. Mas Mario Quintana... "há". Tem. Tinha. Sempre haverá.
         O número do voo foi chamado várias vezes. Voo 3865: Embarque imediato! Última chamada! Sra Roseane Cristiane.... última chamada. Tarde demais. A referida sra  foi abduzida pela livraria do aeroporto. Não quis mais saber da vida, não quis saber do voo. Queria parar a vida naquela respiração. Pra falar a verdade desejou mesmo foi morar naquele local: a casa dos livros, no mundo dos encontros e despedidas, dos achados e perdidos.
            Um segundo de lucidez e percebeu que havia algo de errado. Seu voo não foi anunciado? O que teria acontecido?
         Depois de comprar o livro desejado, resolveu procurar o tal portão de embarque. Atravessou o corredor. Não viu ninguém. Corredor longo, solitário que dava acesso ao portão 11 das viagens internacionais. Portão ainda desconhecido por ela. Só encontrou os comissários. Seu coração acelerou. O seu bilhete foi conferido:
            - Chamamos esse voo várias vezes, senhora!
            - Não! (Espanto e taquicardia)
            - Sim! Fizemos até chamada nominal.
            Ela arregalou os olhos, desesperada.
            - A senhora estava lendo?! Os livros distraem mesmo.
            Um silêncio ensurdecedor instalou-se.
     Livros nas mãos. Impossível omitir. Balançou a cabeça confirmando a sentença. Respiração sobressaltada. Vontade de chorar. Não sabia o que Mário tanto queria: sua tarde, seu plano. 
         Será que o número do voo era esse mesmo?  Não sabia. Não entendia nada. Conseguiu a transferência de seu voo perdido para o primeiro horário da noite, 20 horas. Mário Quintana ficou. Ela concluiu a leitura do livro "Da preguiça como método de trabalho" e leu o "Para viver com poesia" em duas horas. Vida vespertina entregue ao poeta brasileiro. Deliciosa e dolorida abdução. Força criadora do pensamento. Coisa de quem quer a poesia, a ilusão, o irreal, o contraditório, o humano, o encantamento. 
         Antes de sair para ir pela segunda vez ao aeroporto, deixou os livros de Mário em casa. Não podia correr o risco de perder o voo novamente. Adentrou a sala de embarque mais uma vez, se acomodou de frente ao portão já confirmado e esperou pela decolagem. Agora, já inundada de poesia.
***

Marioquintanear....

É ser abduzida na livraria do aeroporto, enquanto seu avião decola. 
Leitora totalmente fora de órbita.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Minha mulher



Minha mulher tem meu cheiro
Metade do seu líquido é meu
Até sua mágoa tem meu nome
Seu gemido, seu néctar, sou eu.

Feito bicho farejo o seu corpo
Amordaço sua boca, envolvo seu pescoço
Minha presa feminista
Por loucura esbraveja
Meu amor, minha conquista
Minha pele ela deseja

Sereia perfeita
Barco naufragado
Profunda riqueza
Sou seu enamorado
Mergulho nesse oceano
Inquieto e desumano
Desorientado.

Não vou correr ao seu encontro
Nem vou ficar aqui parado
Mulher cativa
Escuta o que te falo
Quero deslizar pelo seu corpo
Até que perdoes
Todo o meu pecado...

domingo, 8 de maio de 2011

ma... ma... ma...


(Música: Pedacinho do céu de Waldir Azevedo)



Meu pedaço
no céu
Paraíso
no meu sonho
Encanto
na existência
Amor
divinamente
humano...
Anjo
da mamãe...
Sonho
 encontrar
seu rosto
tocar
sua mãozinha
e ouvir
susurros
de
Ma... Ma... Ma...
em
nosso
Reencontro.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sim.



A partir de hoje vou dizer SIM
Dançar com o vento
Ficar presente no momento
Deixar o corpo todo sonhar que é sem fim
a dança, o orgasmo, o movimento...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Verbo Transitivo Indireto




Sou toda feita de palavras
Materializada na escrita
Grafada com letras de forma
Formando frases imcompreendidas

Sigo tentando alocar
cada palavra em seu lugar
Quebra-cabeça alfabético
Sem borracha para apagar

Estou sintaticamente construída
Preenchida frente e verso
Semanticamente perdida
Verbo transitivo indireto

.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Terça insana













Não sei quanto tempo vai durar minha terça-feira
Já ouvistes falar da terça insana?
Nenhum humor.
São dias e dias esperando pela recuperação
do susto de ser humano.
Com o passar do tempo
a dor não passa...
Mais dói
Mais se quer o que não se tem
Mais se lamenta pelo que se perdeu
Mais anseia pelo amanhã
que talvez nem amanhecerá.
Mais decide pelo não
Mais insiste em não rezar
Mais divide insatisfação
Mais duvida da dor de amar.
Essa minha condição
de a dor semear
vai virar exclamação
em todo verso que brotar...
E se a minha perdição
for todo dia morrer de tanto sonhar?
Então virá a constatação
Sou humana doente de amor
Sou mulher carente de ...mar...
Quero me lançar na sua areia flor
Te ver, te cheirar
Brincar de fazer amor
Mergulhar no seu calor
só pra perder o ar...

sábado, 23 de abril de 2011

Costura

Alinhavo os retalhos coloridos
Na costura dos meus pedaços.
Desde o meu nascimento
costuro uma túnica longa
que proteja meu corpo
que aqueça minha pele
que esconda a minha nudez...
Os retalhos que a formam
eu busco em cada dificuldade, em cada alegria, em cada conquista.
Uns se encaixam perfeitamente na costura,
Outros precisam de corte e adaptação especial.
Minhas vestes se formam de tudo o que eu vivo
a cor da minha roupa é produzida pela cor da minha energia...
O meu dia a dia torna a costura mais longa ou mais curta.
Ás vezes descosturo o que já está pronto
e começo tudo denovo...
Em outro momento, tento fazer remendos
e tampar os buracos... dia e noite.
Sigo costurando a minha roupa
Escolhendo os meus caminhos
Cultivando o jardim do meu coração
Aprendendo a lidar com os meus espinhos.
Hoje costuro mais um retalho vermelho
Agora preciso sair...
Tenho que encontrar mais retalhos.